Nossos Visitantes

quarta-feira, 26 de maio de 2010

A geopolítica da mudança climática

Fonte: ClicRBS - 24.05.2010
Brasil - As negociações sobre mudanças climáticas serão renovadas este ano. Para ter sucesso, elas devem prestar atenção nas lições da Conferência Climática de Copenhague, na Dinamarca. A primeira lição é que a mudança climática não é uma questão apenas de ciência, mas de geopolítica. As expectativas de que, em Copenhague, a pesquisa científica ofuscaria a geopolítica estavam erradas. Sem uma melhora na estratégia, não pode haver luta eficaz contra a mudança climática.

A segunda lição de Copenhague é que, para criar um tratado internacional, precisa primeiro existir um acordo entre a China e os Estados Unidos.

Os dois países são díspares em vários aspectos, mas não em seus perfis de emissão de carbono: cada um responde por entre 22% e 24% de todos os gases-estufa gerados por humanos no mundo. Se um acordo for alcançado entre as duas nações mais poluidoras do mundo, que, juntas, são responsáveis por mais de 46% de todas as emissões de gases-estufa, seria mais fácil chegar a um acordo internacional sobre mudanças climáticas.

Em Copenhague, a China, de forma esperta, defletiu a pressão, escondendo-se por trás de pequenos países pobres e forjando uma aliança de negociação, conhecida como o bloco Basic, com outros três dos maiores países em desenvolvimento – Índia, Brasil e África do Sul.

O bloco Basic, entretanto, é fundamentado por oportunismo político – logo, é improvável que vá permanecer unido por muito tempo. Os perfis de emissão de Brasil, Índia e África do Sul são muito incongruentes. Por exemplo, a emissão carbônica per capita na China é quatro vezes mais alta do que na Índia.

A China rejeita o argumento indiano de que níveis de emissão per capita e contribuição histórica de gases-estufa deveriam formar os critérios objetivos para a mitigação de carbono. O país asiático, como fábrica do mundo, quer uma fórmula que releve a intensidade de emissões ligadas a indústrias de exportação. Tão logo a luta para definir critérios para a ação de mitigação comece em futuras negociações, a tal aliança se desfará rapidamente.

Uma terceira lição de Copenhague é a necessidade de uma agenda mais realista. Muito do foco foi posto em cortes de carbono por quase duas décadas, o que praticamente excluiu outros elementos da agenda de discussão. Agora é hora de desagregá-la em partes menores e mais administráveis. Afinal de contas, muitas coisas podem ser feitas sem um acordo oficial que defina patamares nacionais de corte em carbono.

Considere eficiência energética, que pode ajudar a trazer um quarto de todos os ganhos em reduzir a emissão de gases-estufa. Ineficiência energética não é problema apenas no Terceiro Mundo, mas também no mundo desenvolvido. Os EUA, por exemplo, emitem o dobro de CO2 por cabeça do que o Japão, embora os dois países tenham similares índices de renda per capita.

Além disso, dado que o desflorestamento conta como 20% do problema de emissões, o armazenamento de carbono é tão importante quanto os cortes. Cada hectare de florestas tropicais, por exemplo, guarda 500 toneladas de CO2. A conservação e a administração das florestas, portanto, são cruciais para driblar as mudanças climáticas. Na verdade, para ajudar a diminuir o impacto das mudanças climáticas, os Estados precisam investir estrategicamente em restauração ecológica – plantando e preservando florestas, construindo açudes e protegendo espécies ameaçadas.

A comunidade internacional também precisa focar em estancar mudanças ambientais provocadas pelo homem. Mudanças ambientais diferem de mudanças climáticas, apesar de existir a tendência, por parte de alguns entusiastas, de desfocar a distinção e tornar o aquecimento global o culpado por tudo.

A mudança ambiental causada pelo homem tem a ver com uso irresponsável da terra, excesso de bois em pasto baixo, depleção e contaminação de fontes superficiais de água fresca, excesso de uso do lençol freático, degradação de ecossistemas litorâneos, práticas de irrigação ineficientes ou ambientalmente insustentáveis, manejo incorreto de lixo e destruição de habitats naturais. Tais mudanças ambientais não têm ligação alguma com o aquecimento global. Ainda assim, contribuirão para a variação climática. Logo, devem ser impedidas.

Mudanças climáticas e ambientais, dadas as suas implicações para a segurança de recursos e para a estabilidade econômica e social, são claramente multiplicadores de ameaças. Enquanto continuam a procurar um acordo internacional abrangente, a comunidade internacional deveria também explorar abordagens inovadoras, como iniciativas globais de parceria público-privada.

Como mostra a experiência da comunidade internacional desde a Eco 92, é mais fácil definir metas globais do que implementá-las. As resoluções formuladas no princípio de Copenhague já incorreram em controvérsia, assim como em interpretações variadas, diminuindo as chances de futuro do chamado Acordo de Copenhague e mantendo a boa imagem do acordo costurado na última hora para mascarar a falha da conferência. Apenas 55 dos 194 países mandaram seus planos de ação nacional até o prazo, em 31 de janeiro.

A agenda de discussão das mudanças climáticas tornou-se tão politicamente direcionada que atores importantes acoplaram a ela todos os tipos de interesses competitivos, econômicos e de outras ordens. Isso não deveria ter tido permissão para acontecer, mas aconteceu, e não poderemos prosseguir de jeito algum a não ser que – e até que – confrontemo-nos com este fato.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Postar um comentário